Um belo sonho

 

No meu país, a Constituição estabelece um conjunto de direitos essenciais que todos devem respeitar e que possibilita aos seus cidadãos uma vida digna, ou seja, a Constituição estabelece um princípio de legitimidade de que a todos os cidadãos sem excepção, seja reconhecido o direito à satisfação das necessidades vitais como alimentação, saúde, habitação, educação, bem como a usufruir de liberdade política e civil (liberdade de pensamento, religião e associação); garante ainda um vasto conjunto de outras garantias que não vou estar aqui a enunciar porque no país onde vivo todos as conhecem, praticam e respeitam.

Tenho portanto a sorte de viver num país onde impera a lei, a ordem e a justiça, onde todos os seus cidadãos fazem questão de cumprir escrupulosamente com as suas obrigações, conscientes de que têm direitos mas também têm deveres, pagam de bom grado os seus impostos e contribuições, denunciam a fraude e combatem a economia paralela, porque sabem que o retorno se traduzirá na manutenção dos empregos, no acesso à saúde e à educação, reformas dignas, qualidade de vida, etc.

Não tenho portanto receio da tão propalada crise económica que parece assolar alguns países por aí fora, posso dormir tranquilo porque sei que amanhã continuarei a ter o meu posto de trabalho que me assegurará o salário no final de cada mês. Não sendo rico, longe disso, sou no entanto justamente remunerado pelo meu contributo para o desenvolvimento e crescimento do meu país através do meu trabalho, o suficiente para prover às minhas necessidades e às da minha família sem dificuldade.

Não há fome neste meu país, a alimentação é garantida a todos e mesmo os menos favorecidos, aqueles que por algum momentâneo percalço da vida não têm emprego ou não podem trabalhar, não têm motivos para preocupações já que o estado facilmente accionará os mecanismos de protecção social para acorrer as estas situações meramente pontuais que rapidamente serão resolvidas. As situações mais graves ou mais duradouras, especialmente para aqueles que não podem trabalhar por falta de emprego ou até os que preferem não fazer nada, porque também os há, o governo assegura-lhes o sustento com a dignidade que se exige numa sociedade de bem, exercendo neste contexto uma das suas principais funções, proporcionando aos seus cidadãos condições de vida minimamente dignas, isto é, o suficiente para garantir que nada lhes falte bem como a todos os seus dependentes no que diz respeito à alimentação, saúde e educação, no âmbito aliás do princípio de solidariedade que está adjacente à obrigatoriedade dos descontos para a segurança social daqueles que têm a sorte de trabalharem.

Quanto à saúde, o conceito de gratuitidade aplicável neste meu país, assegura acesso aos serviços de saúde a todos os seus cidadãos, de forma adequada e com qualidade. Haverá sempre quem se queixe das míseras taxas moderadoras ou ainda quem considere os medicamentos muito caros, mas são apenas ténues protestos sem significado que não retira mérito aos bons ofícios proporcionados pelo SNS(Serviço Nacional de Saúde), embora aqui e ali haja alguns problemas mas coisa de pouca monta, apenas algumas listas de espera no que diz respeito a cirurgias, certamente por falta de profissionais de saúde nomeadamente enfermeiros(muitos preferem trabalhar noutros países) e médicos que são manifestamente poucos para as necessidades da população, pese embora o governo não complique no acesso às universidades, a verdade é que poucos jovens ambicionam seguir esta profissão. Creio no entanto que o problema das listas de espera não é preocupante e tudo se resolverá em poucos anos.

Outro aspecto importantíssimo no desenvolvimento e modernização dum país é a educação e neste capítulo e à semelhança do que acontece com a saúde, o meu país é um belo exemplo de como devem funcionar as instituições, garantindo o acesso de forma gratuita em todos os níveis de ensino. Do básico ao superior, há neste meu país um ensino de qualidade, infra-estruturas adequadas e com óptimas condições para acolher os jovens, e cujo resultado se traduz num país com cidadãos altamente qualificados e com lugar assegurado no mercado de trabalho. Naturalmente que também na educação nem tudo é perfeito, já que há sempre quem se queixe do preço do material escolar ou das propinas, mas mais uma vez, são apenas vozes de burro que não chegam ao céu, nem os livros nem as propinas são assim tão caros tendo em conta o nível de vida em que vivemos, onde até os que mais ganham são os que menos pagam, realmente não compreendo estas queixas. Ainda em relação à educação registo apenas um pequeno problema, que é o facto de se constituírem turmas com um número demasiado elevado de alunos o que prejudica claramente a qualidade do ensino e que se prende apenas com a falta de professores (nunca tantos foram ensinados por tão poucos), que leva mesmo o governo a ponderar contratar alguns lá fora. Este é um problema de difícil resolução, até porque muitos professores, tal como os enfermeiros preferem emigrar apesar dos insistentes apelos do governo para que ponham os seus conhecimentos e as suas capacidades ao serviço do seu país, oferendo-lhes estabilidade e remunerações bem aliciantes.

Tudo corre bem no meu país e os ecos duma eventual crise económica são tão longínquos que por enquanto durmo descansado em relação ao futuro, confio nos meus governantes, acredito que quando a dita cuja cá chegar, se chegar, já estarei a gozar a minha merecida reforma se Deus quiser com saúde para tirar partido da recompensa que me é devida por uma vida inteira de trabalho em prol do progresso, desenvolvimento e modernização do meu país, sim, porque eu também contribuo para isso.

Oh! Meu Deus, infelizmente o país do meu sonho era doutra galáxia. O fim do sonho despertou-me para o meu país real, e a realidade é um pesadelo em que se transformou o dia a dia, o meu e o de muitos portugueses, para quem a alegria e a esperança deu lugar à tristeza de um país sem futuro e à angústia de não sabermos o que nos espera no dia de amanhã. Resta-nos a esperança de que a capacidade de luta, de trabalho e de resistência dos portugueses perante as adversidades, seja suficiente para nos devolver a confiança num futuro melhor.

 

Jorge Martins

 

 

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O Tempo em Cavez